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Capitalismo, barco tocado e à deriva

Capitalismo, barco tocado e à deriva

Enric Duran
Este 2009 tem-nos chegado como o ano de todos os perigos. A tempestade é muito forte, acaba-se o combustível e o barco navega à deriva. Afundará o barco? Quando? É muito difícil prognosticar o ritmo da crise em curso, sobre tudo porque não tem precedentes na história do capitalismo. A crise cíclica tem-se unido à de um sistema baseado no crescimento, o qual já não se pode manter. A crise tem um carácter plural (económica, energética, ambiental, ideológica...) e as inter-relações entre seus distintos componentes dão-lhe um comportamento errado e pouco previsível. De todas as maneiras, um conjunto de indicadores estão assinalando que a recessão global desenvolvida durante o 2008 se está convertendo numa depressão global para este 2009. Esta nova etapa está a ser caracterizada pelas grandes caídas produtivas e o aumento da desocupação nos países centrais e na maior parte da periferia.
A chuva de milhões, vertida sobre os mercados dos países ricos não tem conseguido reduzir a descida. Em EEUU, o PIB do 4º trimestre do 2008 caiu um 3,8%, a produção industrial um 11%, o consumo de bens duráveis e as exportações um 22%. No Estado espanhol, o PIB do 4º trimestre caiu um 1%, a produção industrial desceu um 9,5%, a construção um 16%, e a venda de carros um 30%.
As informações disponíveis desde o inicio do 2009 indicam que a tendência está a aumentar. Em todo o mundo o crescimento do desemprego tem-se acelerado no último trimestre do 2008. Só em 3 meses, havia 1 milhão de novos desempregados nos Estados Unidos. No Estado espanhol o desemprego chegou a ser do 14,5% em Janeiro do 2009, e espera-se, já oficialmente, que chegue ao 18% a finais do 2009. A Comissão Europeia tem ido mais além e já prevê uma taxa de desemprego do 21,4% para o 2010.
O único que aumenta é a poupança pessoal, de quem o pode fazer, ante o medo de que a situação piore, faz crescer o círculo vicioso recessivo de consumo, produção e inversão. Se tem produzido um rápido empobrecimento do grosso da população, combinando a perda de riquezas ilusórias em dinheiro virtual com perdas reais de trabalho, salários e habitações.

Soluções escandalosas e falsas

Desde que se produz o colapso financeiro a meados de Setembro, os governos de todas partes do mundo tem intentado suavizar a caída a traves de ajudas milionárias à banca, depois às indústrias chave, como a do automóvel, e em menor medida aos consumidores. Têm-nos escandalizado com ajudas aos mesmos responsáveis, enquanto milhões de pessoas perdiam o trabalho ou eram depejad@s das suas propriedades pelas suas dívidas. Mas nem assim têm conseguido controlar o timão. Estas injecções de fundos estão aumentando perigosamente o endividamento público sem conseguir o objectivo buscado. Isto sucede porque detrás da crise de liquidez recai o sobre endividamento público e sobre todo privado, que tem colocado a numerosas empresas uma enorme taxa de consumidores na morosidade e, cada vez mais, na insolvência. No Estado espanhol, o endividamento familiar tem passado em 10 anos do 47% ao 135% do PIB. Com respeito à morosidade dos créditos concedidos por bancos, caixas e cooperativas de crédito a particulares e empresas, se tem subido do 0,848 % em Dezembro do 2007 até o 3,286% ao acabar o 2008. No caso dos estabelecimentos financeiros de crédito, a cifra já tem aumentado até o 6,09%. O sobre endividamento não se repara injectando novo dinheiro prestado ao mercado, pois com estas intervenções só se consegue um respiro passageiro e se atrasa um pouco o colapso sem o poder impedir. E, por outro lado, através das ajudas públicas “anti-crise”, as dívidas passam de mãos privadas a públicas, a expensas de, por risco a solvência dos próprios estados. O deficit do Estado espanhol chegou ao 3,4% a finais do 2008 e espera-se que chegue ao 5,8% em finais do 2009, no entanto a UE já o passou como expediente para que no se exceda por acima de 3%

O aumento das desigualdades como factor acrescentado.

Na eurozona, as rendas das pessoas trabalhadoras, em relação ao total europeu, passaram do 70% em 1992 até o 62% em 2005. No Estado espanhol, a descida foi todavia maior, do 72% ao 61%. Isto são cifras oficiais, as que fazer ia falta acrescentar as rendas de todos os milionários que não declaram a as Finanças. Além do sobre endividamento, a redução do poder aquisitivo das classes populares é o maior responsável da caída da procura. Os mais ricos iam fazendo muito e muito dinheiro e, como não os podiam gastar, os poupavam e os invertiam na especulação financeira e imobiliária, fazendo aumentar assim o preço das habitações causando o próprio endividamento. Agora, o complexo bancário, imobiliário e construtor, tem 1,6 milhões de habitações só no Estado espanhol, quando a procura é de 220.000 e o valor de estes activos continua a reduzir-se enquanto aumenta a morosidade. É também importante entender que a insolvência e o sobre endividamento não são só consequência do abuso financeiro sobre as empresas e as pessoas, mas apenas são o resultado de um prolongado estancamento produtivo. E a causa principal de esta crise de crescimento da economia produtiva é o encarecimento e a escassez das matérias primas e os recursos naturais que o capitalismo tem ido espoliando, e em muitos casos desbaratando, cada vez mais nas últimas décadas.
A crise é sistémica e não tem solução dentro do actual modelo.
Paradóxicamente, o que não tem conseguido os mandatários com boas palavras e promessas, o tem conseguido a crise em questão de uns meses. A queima de combustíveis fósseis tem-se reduzido e isto beneficia-nos contra a alteração climática. Agora si a economia se refaz, pode fazer colapsar o planeta, e não se pode crescer sempre num planeta com recursos finitos. Agora, a princípios do século XXI, já estamos a chegar ao limite de alguns destes recursos. Quando voltarmos a ter suficiente liquidez financeira para reactivar a economia, o que faltará será líquido para alimentá-la. O cenit do petróleo esta aqui. O ouro preto deu-nos o primeiro aviso, e outros combustíveis fósseis, minerais para a indústria, fertilizantes para a agricultura, terras cultiváveis e um largo etcétera de recursos limitados, atravessaram problemas muito cedo se a economia capitalista se refaz. É o conjunto do sistema o que tem entrado em crise. São os pilares do capitalismo, o modelo de crescimento, seus sistemas produtivos e o modelo consumista, os que estão a navegar à deriva. Um sistema globalizado do que nenhum país pode escapar porque está articulado a nível comercial, produtivo e financeiro. Se a tendência acelerada de queda económica não se pode travar, como muitos factores parecem indicar, este 2009 entraremos numa grande depressão com mais repercussões que a dos anos 30, posto que boa parte dos recursos da terra já tem sido espoliados.

Temos que abandonar o barco antes que se afunde! Com esta crise chega também o momento de propormos uma mudança de modelo no âmbito pessoal e colectivo. Se adiarmos o afrontamento à situação com correcções de maquilhagem, mas não de fundo, a caída será mais forte e mais inapelável. Faz falta que nos questionemos de acima para abaixo o modelo económico capitalista e de desenvolvimento. Temos que nos questionar porque circulam tantos carros, esta civilização, esta industria e suas cadeias que fabricam automóveis de mais, e incontáveis montanhas de objectos que não prestam. Não têm futuro. O posto de trabalho na grande fábrica não é um valor absoluto. Faz falta que ponhamos em entre dito o círculo vicioso de fomentar o consumo, para que aumente a produção para soster o “nível de vida”. Se asseguramos as necessidades básicas, o nosso nível de vida corresponderá ao que somos, como nos sentimos e como nos relacionamos, e não aos bens materiais.
aladeriva@sincapitalismo.net

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